Um gastroenterologista da Hopkins desenvolve uma pílula que imita os benefícios para a saúde da cirurgia bariátrica.

Uma pílula pode proporcionar todos os benefícios da cirurgia bariátrica. Crédito: Dalbert Vilarino
Mais de 37 milhões de americanos têm diabetes tipo 2, uma doença crônica que afeta a capacidade do corpo de regular e utilizar o açúcar. De acordo com o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), é a sétima principal causa de morte no país. O diabetes tipo 2 pode ser tratado com mudanças no estilo de vida e medicamentos, incluindo insulina, um hormônio que regula o açúcar. A cirurgia bariátrica, que envolve alterações físicas e irreversíveis no trato digestivo, pode ser uma intervenção altamente eficaz, principalmente em pacientes obesos — cerca de 80% dos pacientes com diabetes estão acima do peso —, mas os custos e riscos da cirurgia podem ser proibitivos. Um gastroenterologista da Universidade Johns Hopkins lidera uma startup que desenvolve uma maneira não invasiva de simular o resultado da cirurgia bariátrica — apenas com uma pílula.
Reação intestinal
"Meu fascínio por esse tema começou quando eu estava cuidando de um paciente com diabetes tipo 2 que havia se submetido à cirurgia bariátrica", diz Ashish Nimgaonkar, gastroenterologista do Hospital Johns Hopkins e professor assistente da Faculdade de Medicina. "Em 24 horas, os problemas de glicemia dele se resolveram." De fato, ele afirma que a maioria dos pacientes diabéticos que se submetem à cirurgia entra em remissão a longo prazo. Mas, como qualquer cirurgia, o procedimento apresenta riscos, que variam de complicações leves a graves, incluindo infecção, sangramento e obstrução intestinal. "Além disso, é um procedimento muito caro", acrescenta Nimgaonkar. Anualmente, menos de 1% dos pacientes que poderiam se beneficiar da cirurgia bariátrica se submetem ao procedimento.
A cirurgia bariátrica considerada o padrão ouro para o tratamento do diabetes é o bypass gástrico, no qual o estômago é reduzido e redirecionado para que o conteúdo se esvazie mais adiante no intestino delgado, contornando a porção inicial do intestino, com cerca de 30 centímetros de comprimento, conhecida como duodeno. "O duodeno está se revelando um dos órgãos mais importantes na regulação metabólica", afirma Nimgaonkar. A passagem dos alimentos por ele pode desencadear sinais neurais e metabólicos que afetam o açúcar no sangue e, consequentemente, o peso corporal. "Passamos a chamá-lo de regulador mestre", explica. Em pacientes com diabetes tipo 2, essa sinalização duodenal é anormal. Para interromper essa sinalização, uma alternativa emergente à cirurgia bariátrica tradicional envolve o implante endoscópico de uma barreira física sobre o duodeno, uma espécie de manga plástica. No entanto, essa abordagem também está sujeita a complicações cirúrgicas, e as barreiras não são permanentes. Como bloquear a sinalização duodenal de forma conveniente e não invasiva?
Cirurgia em forma de pílula?
Nimgaonkar começou a trabalhar nesse problema em 2013, em colaboração com o Centro de Inovação e Design em Bioengenharia da Johns Hopkins. Alguns anos depois, ele cofundou a startup de biotecnologia Glyscend Therapeutics para desenvolver uma solução inovadora: um comprimido diário que cria um revestimento polimérico temporário que bloqueia a sinalização ao longo do duodeno, simulando os efeitos da cirurgia bariátrica e das barreiras intestinais. Um dos principais desafios era fazer com que o polímero sobrevivesse ao ambiente altamente ácido do estômago, mantendo suas propriedades terapêuticas. "Projetamos o medicamento para que, ao chegar ao estômago, ele seja completamente solúvel e tenha a mesma viscosidade da água", explica Nimgaonkar. "Mas, assim que chega ao duodeno, o pH mais alto ativa o medicamento."
Conhecido como GL200, o comprimido de liberação de polímero passou por três testes em humanos e demonstrou ser bem tolerado pelos pacientes, atravessando o trato gastrointestinal sem ser absorvido pela corrente sanguínea. Além disso, os primeiros testes em pacientes com diabetes mostraram impacto positivo nos níveis de açúcar no sangue, comparável a intervenções cirúrgicas. "Houve uma melhora significativa na glicemia, tanto em jejum quanto após as refeições", afirma Nimgaonkar.
Passando o bastão
O próximo passo para o promissor comprimido é demonstrar sua eficácia e segurança em ensaios clínicos com humanos, em uma escala substancialmente maior e mais longa — envolvendo até 6.000 pacientes diabéticos que o tomem por um ano ou mais. Isso está além dos recursos da startup de Nimgaonkar, por isso eles estão em negociações ativas com empresas farmacêuticas para adquirir ou licenciar o medicamento. "Uma grande empresa farmacêutica está bem posicionada para fazer isso, dados os recursos de capital e operacionais que possui", afirma Nimgaonkar.